Que meus filhos e netas recordem o meu amor pela escrita! Afinal as histórias são feitas para serem partilhadas. Só assim elas se propagam e se perpetuam...

sábado, 5 de outubro de 2013

Tenho o estomago embrulhado..

 photo pedido_zps3a918f85.jpg



Tenho o estomago embrulhado, assim se diz por aqui quando há uma má disposição o que me acontece hoje.

Não querendo ferir susceptibilidades, chegou a hora de dizer o que talvez não deveria para não magoar ninguém.

Tenho visto por aí, uma luta titânica a favor de todos os animais, e para o homem quase passam despercebidas. 

Falo como é óbvio das causas individuais.

É que se o ser humano estiver bem, os animais também estarão mas se invertermos a prioridades já assim não será.

E falo com conhecimento de causa. Conheci gente que se dedicava o dia inteiro a tratar e alimentar cães e gatos enquanto em casa os seus idosos eram ignorados.

Sofriam de solidão, carência de alimentação, doenças etc. que num desabafo diziam:
·       
        Se eu fosse um cão…!

Estamos todos nesta sociedade de gente na miséria, idosos e crianças maltratados

Mas dedicam-se de corpo e alma aos animais.

Que mundo é este?

Da miséria a que este país está votado e cada vez mais, também há fome de aprender.

Da fome do saber, da cultura a que poucos se dedicam.

Ora bem, hoje ao abrir a minha página do facebook deparei com o apelo singelo de uma avó que pede a quem possa ajudar, que faculte livros escolares para o seu neto.

Das gentes de boa vontade e que gostam de ajudar, ninguém nunca teve a ideia de, para os bairros carenciados, fazer um peditório de livros e material escolar para os meninos que deixam de ir a escola pelas razões expostas por esta avó?

E nas juntas de freguesia, não haveria lugar para os receber e ter em deposito e servir a quem precisa-se, todos os anos, ou  só serve em tempo de eleições?


Afinal livros escolares e não só, todos têm em casa a sobrar.

Talvez não continuássemos a ser um país de iletrados, de crianças na rua, marginais que serão amanhã os adultos deste Portugal.


Olhe mais a cima que muitos e oxalá assim seja sempre! 

sábado, 28 de setembro de 2013

D. Emilia

alfaiate photo alfai.jpg


D. Emilia vivia há muitos anos no interior, confinada a uma cantina do mato para onde fora levada logo após o casamento, pelo homem que a trouxera da Metrópole num casamento por procuração.

Da sua juventude de miséria vivida nos anos salazaristas, tudo seria melhor a ficar por ali sem esperança no futuro. O mais que poderia era casar com um "Toinho "que em nada lhe iria alterar a vida quotidiana do amanho da terra e do gado para tratar.

Chegara a aldeia o “Africano”, Jose que havia partido há anos para terras de Africa e agora regressara exibindo toda a sua vaidade de ter vencido e viver bem.

Com ele algumas fotos dos amigos africanos e não só, também de alguns brancos que o acompanhavam naquelas terras.

Secretamente trazia uma fotografia de Luis, que cansado de viver a vida africana só, e no medo de acabar com uma qualquer preta ou mulata que o aconchegava nas noites de cacimba, queria arranjar noiva branca.

José, numa conversa junto a eira da aldeia, onde atarefada Emilia erguia o grão, fala no amigo e conta-lhe como seria boa a vida se ela quisesse “noivar” o rapaz, dando todas as boas referencias ajudando a apresentação.

Cansada do trabalho e com a palha do centeio a picar-lhe o corpo, ouve a mãe gritar para que recolhesse o gado que pastava por ali e de regresso “botasse” agua na belga nas couves antes de ir para casa.

O corpo pedia e de alma cansada, aceita que se escrevam e vão trocando letras durante meses até que Luis lhe propõe que se case com ele.

Os pais que apesar de não o conhecer fazem o seu juízo de valor, e aceitam e imediato pois que melhor partido poderiam arranjar que um “Africano” bem de vida.

Num fechar de olhos Emilia de 20 anos apenas, casa por procuração e vê-se metida num navio a caminho do sonho de ser como a senhora morgada, dona das terras da aldeia que tinha charrete, vivia bem numa casa grande, com pessoal amanhando as terras.

É longa a viagem, mais o tempo que se encontra deitada por conta dos enjoos, que com o tempo vai passando.

Até que um dia ao longe se vê terra, seria o destino certamente pois aquele calor que se fazia sentir, e que lhe colava a roupa ao corpo só poderia ser mesmo a “sua Africa”.

Ao anoitecer desembarca no porto da Beira, de olhos esbugalhados procurando o desconhecido que já era seu marido por lei, na esperança de o localizar no meio de tanta gente que ali estava aguardando o navio.

Um braço esticado acena-lhe indicando a sua presença, era ele o homem que esperava encontrar. Rapidamente recolhem a bagagem e saem do porto.

Após almoçarem embarcam no comboio que os levaria a Tete. 

Trocam poucas palavras apenas para saberem um pouco de como havia decorrido a viagem, e indo travar-se de conhecimentos que as cartas deixaram em branco.

No dia seguinte, moídos da viagem descansam pela primeira vez numa pensão onde passam a noite, onde se dão ao conhecimento intimo num casamento agora assumido.

A cidade é pequena, poucas casas mas encantam Emilia apesar de estranhar tanta gente circulando de tez negra, o que lhe faz muita confusão.

Ao meio da manha, Luis chega com uma Chevrolet azul carregada de mercadoria, e leva-a para bem no interior do mato, no Dedza, onde ficava a cantina, que seria o seu lar.

As estradas de terra batita, o baloiçar da carrinha pelos “mecurros” até chegarem ao destino deixam-na amedrontada e moída de cansaço.

As lagrimas caem silenciosas, mas nada há a fazer senão seguir o curso de seu destino.

Passaram muitos anos, Emília foi-se habituando aquela vida de cantineira, já não tinha medo da noite nem dos barulhos, fora-se habituando aos cheiros á comida, a tudo.

O seu homem tratava-a bem, aprendeu a ama-lo, ajuda no que podia, e á noite já não se sentia cansada como outrora na aldeia que deixou.

Aprendeu a gostar dos serões á luz do petromax, da noite enrolada junto a ele com medo dos ruídos da noite.

Ao domingo sentavam-se na varanda nas cadeiras de lona olhando a serra, ouvindo a radio, única ligação ao mundo exterior, ou desciam a povoação onde deixavam e lavavam o correio.

O tempo foi passando, e continuava D. Emilia sentada na varanda da casa á tardinha, olhando o infinito talvez tentando ver a aldeia de onde saíra, num silêncio profundo apenas quebrado pelos sons de Africa, que passaria pela cabeça de D. Emilia?

Seria ela agora como a senhora morgada lá da terra?