A propósito de uma “quezilia” nascida
algures por ai, relembro um texto escrito há tempos, inserido numa pagina que
escrevi sobre “Viajando por Moçambique.
Paginas da vida, inesqueciveis aos fim de meio seculo!
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Carregamos o jipe, bem cedo após o
“matabicho”, despedimo-nos do pessoal e saímos em direcção ao Chimoio.
Para trás ficava a serra da Gorongosa com
todos os seus mistérios.
Cerca de 140Km nos esperavam pela
frente, umas de duas horas de viagem, as condições da EN6 era desconhecida
apesar de nos terem garantido estar em óptimas condições.
Alguns quilómetros percorridos e
verificamos não ser propriamente uma pista.
O capim da beira da estrada cobria parte
da paisagem engolindo algumas cantinas que outrora haviam tido a sua época e
agora apenas as velhas paredes teimavam em marcar um passado já inexistente.
Cruzando caminho algumas gingas ora
montadas ora “guínhadas” (empurradas) devido á carga
que levavam.
Vila Pery um destino que queria visitar,
tinha muitas recordações, aninhei-me a um canto com meus pensamentos para
decidir por onde começar e como iria encontrar aquela cidade, e chegamos,
avistando ao longe o monumento de ferro sem pintura, na praça outrora relvada,
agora de chão “descascado” onde quase toda a gente tirava fotografias, ainda me
recordo da que aparece na capa do disco do conjunto Oliveira Muge.
Muita coisa não reconheci, tal a
degradação em que se encontravam.
Sitio para almoçar foi uma incansável
procura.
Enquanto se aventuravam nessas voltas
pedi que me deixassem por momentos em frente do velho colégio, uma imagem que
não cabia na minha memória, e ainda me questionei se seria aquele mesmo
edifício.
Abri a caixa
de memórias que há muito havia encerrado.
Fora no ano de 1962 que saíra pela
primeira vez do “colinho” da família para me aventurar a ir estudar para o
colégio mais conceituado da altura.
A muito custo meu pai fizera a
matrícula, apresentara todos os requisitos para ingressar na instituição,
sempre com uma tristeza no rosto pela separação que se adivinhava da sua
menina, do seio familiar.
Uma longa lista de enxoval que teria que
me acompanhar devidamente marcada com um número que me fora atribuído “18”.
Foi meticulosamente adquirido,
vestidinhos lindos e todo resto de roupa necessária para o enxoval durante o
tempo de internato.
Tudo novo para mim.
Rapidamente chega o dia da ida para o
colégio, mal dormira essa noite, e logo pela manhã, mala na bagageira do carro
e lá percorremos os cerca de 400 km que separavam a cidade de Tete a Vila Pery.
Ai começava acordar para a realidade,
tão longe que aquilo era de casa, mas animava-me a ideia que outras meninas
também lá estavam por isso seria divertido…
Á chegada paramos o carro na rua da
porta principal de acesso ao colégio, e do lado contrário um imenso pinhal
fazia sombra ao automóvel que ali estacionara meu pai.
Atravessamos um jardim e á
nossa espera uma freira pede-nos que entremos para uma sala pequena mas
simpática, logo reparei do lado esquerdo um enorme quadro com fotografias tipo
passe de meninas que certamente estariam também ali a estudar, e mais não
era que o quadro de honra das melhores alunas do colégio.
Safardana como sempre fui, esbocei um
sorriso por nunca me poder imaginar naquele grupo.
E nunca aconteceu mesmo, não me
enganara!
Logo as despedidas, e pegando na mala
atravessei uma porta contrária que me deu entrada a um mundo novo que
inicialmente mais não era que um extenso corredor que iria sabe-se lá onde, mas
que dava para uma data de salas de aula.
Ao fundo do lado esquerdo uma escada
dava acesso a um primeiro andar, zona dos dormitórios, com sorrisos levaram-me
até cama daquele que seria o meu dormitório dali para a frente.
Calhou-me uma
cama que (logo em frente estava cubículo onde dormia a freira que nos guardava
noite dentro)
Uma camarata,
dum lado e de outro camas alinhadas uma mesinha de cabeceira e aos pés uma
cadeira.
Questionava-me
onde iria arrumar as minhas roupas, os meus vestidinhos e tudo aquilo que com
tanto amor minha mãe havia arranjado para levar.
Pois é,
começara a desilusão, tudo me foi confiscado para a rouparia onde ficariam
guardadas até delas necessitar num longínquo regresso a casa nas ferias, só e
apenas nessa altura.
Ali a entrada
era proibida apenas acesso restrito as freiras.
Comigo apenas
o sabonete o copo de dentes, um pente, uma toalha de rosto e um pijama.
Foi-me
atribuída uma bata e um cinto de cabedal, uma muda de roupa interior os sapatos
e nada mais.
Tudo
arrumadinho no espaço exíguo que me havia sido atribuído.
A partir
desse dia ficara para trás o sonho de menina vaidosa e mimada e a dura
realidade chegara.
Claro que
caíram as primeiras lágrimas, que rapidamente limpei para não dar parte fraca
quando me fora juntar as restantes meninas que já haviam chegado antes.
Cheguei-me a
Isabel Antunes que apesar de mais velha já a conhecia.
O resto tudo
gente nova.
A rotina
instalou-se, o deitar cedo após o estudo da noite, os banhos de água fria pela
manha, o esperar a vez para a higiene, as formaturas duas a duas por tudo e por
nada, as papas ao matabicho, as intragáveis toranjas, as carcaças com doce de goiaba
e o copo de sumo marado ao lanche, as refeições em silêncio, os castigos de
comer sozinha numa mesa ao fundo do refeitório.
Enfim, um sem
número de coisas que se não esquece.
A imagem que
guardo de quando estávamos na sala de aula e olhávamos para a porta que tinha
uma “vigia” de vidro quadrada e víamos o rosto carrancudo da freira a
vigiar-nos.
As batas
limpas para mudarmos era apenas uma vez por semana, ora isto no tempo de calor,
nos sovacos ficava o tecido duro e fedido, mas até as mudarmos as pregas tinham
que manter-se aprumadas.
O dormitório
das grandes, como todas gostaríamos de poder estar, tinham divisórias em placas
de madeira que dava uma privacidade a quem lá dormia, mas isto era apenas para
as mais velhas.
Essas meninas
que dentro do colégio tinham privilégios que as “maçaricas” não tinham,
olhavam-nos com um ar superior e uma autoridade como se fossemos de outro planeta,
tendo ate direitos sobre nós que acabávamos por nos sentir “nada”.
Uma vez
passei-me completamente após ser rebaixada em frente a todas as colegas no
intervalo de uma aula, agarrei-me aos cabelos de uma e bati-lhe, para valer
mesmo ao ponto de terem que nos separar.
Fiquei um mês
de castigo a comer sozinha na tal mesa ao fundo do refeitório e sem direito a
recreio, mas feliz!
A essa colega,
encontrei-a anos depois em Salisbúria, por capricho do destino casada com um
colega e amigo do meu marido.
Mas tinha
amigas, muitas que recordo com saudade.
Foram bastas
vezes que me ajoelhava na capelinha que existia no pátio de trás, onde muitas
alunas que cabulavam o ano todo iam pedir ajuda para os testes em troca de
promessas sei lá se algumas vezes cumpridas.
Eu apenas
pedia que o meu papá me fosse buscar depressa.
Bem que lhe
escrevia cartinhas contando a minha saga mas as mesmas eram censuradas e jamais
chegavam ao destino acontecendo o mesmo com as que recebíamos.
Quando alguém
vinha de Tete para a Beira, minha mãe mandava-me um bolo ou bolachinhas.
Eram
confiscadas de imediato para um armário ao canto da sala de jantar e eram dadas
racionadas ate que acabavam por endurecer e ir para o lixo.
A seguir a
esta capela atravessando uma divisória de rede com maracujás dependurados cujas
flores me alegravam o dia, logo em frente o campo de jogos onde muitas manhas
frias com um simples fato de ginástica fazíamos a aula.
De notar as
temperaturas de inverno em Vila Pery eram gélidas.
Por detrás do
colégio um pátio enorme com sombras onde fazíamos o nosso recreio de
fim-de-semana, e pasme-se algumas lajes de cimento que diziam ser campas pois
seria um antigo cemitério.
Uma vez por
outra tínhamos o passeio de domingo, íamos em fila duas a duas ate ao fim da
rua e regressávamos.
Passávamos
pelos cafés ou cinemas onde a juventude se divertia e ficávamos com uma imensa
inveja!
Nas férias
grandes imediatas decidi não voltaria mais.
Por justiça reconheço
que muito aprendi nesta casa, educação, respeito, maneiras correctas de estar
na vida.
Alguém me
tocou nas costas a chamar-me, para o almoço, o que me acordou dum tempo cujo
espaço seria de mais de meio século para regressar ao presente.
Olhei uma última
vez para trás e despedi-me de mais uma página da minha juventude, limpando os
olhos de uma lágrima de saudade.