Que meus filhos e netas recordem o meu amor pela escrita! Afinal as histórias são feitas para serem partilhadas. Só assim elas se propagam e se perpetuam...

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

É PARA ESQUECER !








Não quero esquecer a minha terra, a pequena cidade dum país maravilhoso onde nasci, brinquei, andei na escola com os meninos negros, e nunca vi  racismo.

Nasci em Tete após meus pais já há´muito viverem em África, alias meu pai desde os 9 anos e minha mãe desde que casou com ele era ainda menina e moça.

Recordo varias cidades onde havia paz, onde se misturavam as meninas para passear, ir à matine ao domingo a tarde, assentar-nos no muro do jardim da alfandega debaixo das lindas acácias floridas ou nas escadas que se encontravam a um canto do muro que dava para o rio.

Quantos namoricos aquela mãe de agua escondeu de quem passava na rua durante o passeio dos tristes.

Trinta anos depois de ter sido obrigada a sair desta terra calma e linda, quente onde o inverno se confundia com o verão, visitei-a, aliás como muitos dos meus amigos que ficaram com o carimbo de África no coração.

Desci do avião, no mesmo campo onde pousou meu filho pela primeira vez que andou de avião, onde chegavam aos magotes gente com a esperança de um futuro melhor.

Eram todos bem recebidos, as vizinhas logo se apressavam a convida-los para um chá com um belíssimo bolo acompanhar.

Quando o avião se fez à pista já eu da janela via a cidade com uma alegria desmesurada até que aterrou numa pista de terra, como sempre fora e ao por o pé no chão, aquele chão bendito que Deus me dera como privilegio lá nascer, deu-me vontade de o beijar.

E volta os mesmos embondeiros, a mesma paisagem e por sinal na gare as mesmas pessoas que deixei como se do dia anterior fosse.

Fui recebida com uma amizade de irmãos, fiquei em casa de amigos que tudo fizeram para que me sentisse bem. Matei saudades do peixe pende, do amendoim torrado etc.À noite na sala de visitas lá estávamos a recordar velhos tempos, como me sentia tão feliz.

Nesta viagem levei a minha filha como que para confirmar a maravilha de gente onde eu nascera e vivera até ela nascer.

O dialeto que ao ouvir ia recordando e de vez em quando aplicava.

Levaram-me a ver a cidade toda, Moatize incluído, onde logo de reconheci a casa onde havia vivido até aos meus 7 anos, a casa dos vizinhos do lado que ainda hoje mantenho contacto aqui em Portugal o filho com quem eu brincava, por de trás a casa do Sr. Cravo onde moravam com duas filhas que Graças a Deus também já as encontrei aqui em Portugal.

As casas estavam abandonadas pois iriam aumentar a procura do carvão e iriam fazer outras sei lá onde.

Era miúda mas recordei Moatize perfeitamente, bastava olhar para a “ chipanga 5,” assim de chamava a mina que erguia seus ferros como que marcando o local da extracção do carvão.

A confirmar tudo isto encontrei os filmes que meus pai fazia na altura e lá está guardo todo este passado.

Fui sempre grande defensora de Moçambique que como por cá se diz, podem tirar-nos Moçambique mas jamais sairá do nosso coração.

Esta semana dou com os olhos de uma noticia no jornal:

O rapto de um Português que já lá vivia há 8 anos, pediram o resgate que com a dificuldade de cada colega se juntaram e pagaram na esperança que o soltassem mas MATARAM-NO.

Que gente é esta?

Portugueses que estão ajudar Moçambique a recompor-se que deixam família em Portugal e acabam por regressar entre quatro tábuas.

Outro português raptado há 6 meses ainda não apareceu.

Que gente é esta que passaram de amistosos a assassinos.?

África acabou com muita pena minha, ficam as recordações de quem por lá passou, nasceu e viveu, mas apenas como se tivesse sido um sonho bom que todos nós tivemos.



terça-feira, 30 de outubro de 2018

Obrigada D.ISABEL CUNHA.




O frio dá para nos recolhermos mais dentro de casa e mexer em coisas esquecidas que dorme em sossego há quase 50 anos.

Reformada há 2 anos e com outras obrigações que tenho, no calor não dá para despejar uma mala onde guardo muito do que não uso.

Mais que não fosse para arejar o que ali foi guardado na mala “demodé” diz hoje a juventude, em canfora com gueixas em madrepérola a alinda-la, comprada no Valy Ossman há muitos anos para ali colocar o enxoval que qualquer noiva levaria no dia do seu casamento.

Como hoje ninguém quer casar muito menos habituadas aprender como se borda um lençol, muito menos como se prega um botão ou se faz uma bainha, riem-se do nosso passado onde pacientemente a Irmã Doroteia nos ensinava.

Talvez fosse a vantagem de ter sido sempre educada em colégios.

Em casa ao lado da minha mãe nas tardes quentes de Africa havia sempre uma peça de roupa que precisava um pontinho e era ao lado dela que muitas vezes fazíamos e desfazíamos até estar impecavelmente feito.

Ora voltando ao inicio do que escrevi, sentei-me no cadeirão foi tirando de dentro da mala peça por peça, sendo que muitas vezes parei para relembrar as historias que guardavam.

Como muitas de vós se lembra essas malas tinham um tabuleiro onde se colocavam as minúcias que poderiam perder-se entre as peças por debaixo guardadas.

Pois logo aí encontro recordações mas não mexi nelas, fui primeiro a mala em si.

Lençóis de bainha aberta, bordados a linha de seda, feito e desfeito porque ao meu lado a Irmã Doroteia achava não estar perfeito.

Panos da louça e do pó, naperons de tecido bordado, rendas, colchas de setim etc. Lembro-me perfeitamente dos instantes que de mãos lavadas antes de iniciar qualquer trabalho e dedal no dedo. Dizia ela que “costureira sem dedal cose pouco e em mal.” Um dito popular.

Ora quando começo a mexer no tal tabuleiro, amorosamente estavam guardados dois mini naprons que me fizeram vir as lágrimas
os olhos.

Peguei neles fechei os olhos e recordando de onde haviam vindo eles.

Quando do meu casamento a determinadas pessoas fui pessoalmente entregar o convite a D.Isabel Cunha. Muitos se lembrarão de quem estou a falar.

Recebeu-me maravilhosamente conversamos imenso tempo e no meio destas conversas frente a uma chávena de chá que simpaticamente me havia oferecido, fala-se no enxoval ao que me pergunta se tinha algo de renda de Veneza.

Não, não tinha pois não era muito conhecida por aquelas terras.

Com seu sorriso nos lábios levanta-se e diz-me:
- Não tens mais, vais ter.

Digerir-se a uma gaveta e traz-me dois naperons de renda de Veneza dizendo que me haveria de dar muita sorte.

Fiquei completamente sem palavras, apenas a abracei em agradecimento às suas palavras e oferta que tirou dela para me dar e complementar o meu enxoval.

Passaram anos e nunca mais a vi mas deixou a sua marca em mim a maravilhosa vizinha que me sensibilizou e deixou a sua marca para toda a vida.

Imaginando que já tenha partido rezo-lhe uma oração de agradecimento e ouvir-me-a certamente com o mesmo sorriso que nunca esquecerei.

Obrigada D.ISABEL CUNHA.